Terça-feira, 18 de Maio de 2010

POR FAVOR LEIAM...

Strawberry fields forever

 

O homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres.

Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-seno local da selecção.

Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras. Peso, altura, medidas,

dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque

são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil.

A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se

e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.

São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são

demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são

embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma

actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e

comida, e trabalham de sol a sol.

É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos

reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres

novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na

Europa. As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são

prisioneiras e reféns da família que deixaram para trás. Na Espanha socialista, este programa de

recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos

escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá

mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de "emigração ética".

Os nomes que os europeus arranjam para as suas patifarias e para sossegar as consciências são um

modelo. Emigração ética, dizem eles.

Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão

poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se

lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos

pequenos.

As que partem ficam tristes de deixar o marido e os filhos, as que ficam tristes ficam por terem sido

recusadas. A culpa de não poderem ganhar o sustento pesa-lhes sobre a cabeça. Nas famílias alargadas

dos marroquinos, a sogra e a mãe e as irmãs substituem a mãe mas, para os filhos, a separação

constitui uma crueldade. E para as mães também. O recrutamento fez deslizar a responsabilidade de

ganhar a vida e o pão dos ombros dos homens, desempregados perenes, para os das mulheres,

impondo-lhes uma humilhação e uma privação.

Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em

silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que

muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.

Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco

saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo,

com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e

assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões de

crédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim

as mulheres dos outros jamais trataria assim as suas.

Os construtores da Europa, com as canetas de prata que assinam tratados e declarações em cenários de

ouro, com a prosápia de vencedores, chamam à nova escravatura das mulheres do Magreb "emigração

ética". Damos às mulheres "uma oportunidade", dizem eles. E quem se preocupa com os filhos?

Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os

europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem

durante seis meses apanhar morango? Não. O método de recrutamento seria considerado vil, uma

infâmia social. Psicólogos e institutos, organizações e ministérios levantar-se-iam contra a prática

desumana e vozes e comunicados levantariam a questão da separação das mães dos filhos numa fase

crucial da infância. Blá, blá, blá. O processo de selecção seria considerado indigno de uma democracia

ocidental. O pior é que as democracias ocidentais tratam muito bem de si mesmas e muito mal dos

outros, apesar de querem exportar o modelo e estarem muito preocupadas com os direitos humanos.

Como é possível fazermos isto às mulheres? Como é possível instituir uma separação entre trabalhadoras

válidas, olhos, dentes, unhas, cabelo, e inválidas?

Alguns dos filhos destas mulheres lembrar-se-ão.

Alguns dos filhos destas mulheres serão recrutados pelo Islão.

Esta Europa que presume de humana e humanista com o sr. Barroso à frente, às vezes mete nojo.

Um excelente texto da Clara Ferreira Alves sobre a Europa.

Dá que pensar sobre o rumo que a sociedade vem tomando.

Publicado Por... mitoseritos às 12:26
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